Saiba como interpretar o resultado de exame de sangue

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É comum as pessoas ficarem ansiosas sobre o resultado de exame de sangue e, muitas vezes, por falta de conhecimento, podem interpretá-lo de forma errada. O fato é que somente uma avaliação médica consegue estabelecer diagnósticos precisos.

Mas enquanto espera a data agendada com o profissional, é possível entender um pouco mais sobre os resultados de alguns dos principais exames de rotina solicitados pelos médicos, como o hemograma.

Para ajudar nesse sentido, vamos abordar a interpretação de alguns exames de sangue e as informações que mais interessam aos médicos. Continue lendo para saber mais!

Como interpretar o resultado de exame de sangue?

Em geral, qualquer exame de sangue pode parecer confuso, mas é preciso pouco tempo para identificar os seus elementos básicos e como eles são organizados nas folhas dos resultados.

Após a familiarização com o formato, fica mais fácil passar os olhos pelas páginas em busca de resultados que são identificados como “altos” ou “baixos”, de acordo com os seus valores.

Os intervalos de referência (ou valores referenciais) são intervalos numéricos estabelecidos para cada tipo de exame, a fim de situar o indivíduo analisado em relação à maioria das pessoas saudáveis.

Quais são os principais elementos de exames que interessam aos médicos?

Veja, a seguir, os principais exames que interessam aos médicos para diagnósticos e tratamentos. Alguns conseguem até detectar doenças sem sintomas aparentes.

CPK (Creatinofosfoquinase)

Verifica a ocorrência de distúrbios que podem afetar os músculos, principalmente. Já foi útil para avaliar o músculo cardíaco (coração), mas com a evolução técnica e científica seu uso nesse caso reduziu-se, superado por exames mais adequados.

Os valores de referência para as mulheres ficam entre 33 e 145 U/L, , para os homens entre 32 e 171 U/L (havendo valores mais elevados na infância e adolescência). Mas preste atenção: esses números não são limites rígidos, e sim o que ocorre em cerca de 95% da população saudável (havendo, portanto, algumas pessoas “normais” que exibem um pouco mais ou um pouco menos que esses valores indicados).

Resultados com valores elevados ocorrem em indivíduos com problemas musculares, como distrofia, golpes, esmagamento, e outras lesões. O uso de estatinas – medicamentos para baixar o colesterol – pode causar elevação da CPK devido à lesão muscular, o que é um efeito colateral conhecido. Pessoas com grande massa muscular, praticantes de esportes de alta intensidade (inclusive futebol) e indivíduos que tomaram injeções musculares têm elevação da CPK.

VHS (Velocidade de hemossedimentação)

A VHS tem utilidade no acompanhamento de processos inflamatórios ou infecciosos, evolução de doenças e respostas a terapias. Frequentemente é relacionado à dosagem da Proteína C-reativa (PCR). Baseia-se na sedimentação das hemácias (glóbulos vermelhos) em uma amostra de sangue posta no interior de um cilindro de vidro, ao fim de uma hora em posição vertical.

O valor de referência para mulheres com menos de 50 anos é de até 20 mm na primeira hora, e até 30 mm entre 50 e 85 anos. Já para os homens com menos de 50 anos o valor é de até 15 mm/h, e até 20 mm/h para os que se encontram entre 50 e 85 anos. Para idosos com mais de 85 anos, 42 mm para as mulheres e 30 mm para os homens.

Valor alto na hemossedimentação ocorre em algumas situações, como doenças autoimunes, infecção urinária, inflamações diversas, e alguns cânceres (principalmente o mieloma múltiplo), além de anemias (mas não a anemia por deficiência de ferro). Quando os valores são baixos podem indicar policitemia vera, insuficiência cardíaca congestiva, anemia falciforme, e outras condições mais raras.

TSH (hormônio tireoestimulante), T3 (triiodotironina) e T4 (tetraiodotironina ou tiroxina)

​O TSH, T3 e T4 (e o T4 na sua forma livre: T4 livre) avaliam o funcionamento da glândula tireoide.

Os valores de referência do TSH são 0,340 a 5,600 mcUI/mL em adultos de idade mediana, com variações na infância/adolescência e faixa mais elevada na velhice. O TSH é o mais importante marcador da atividade tireoideana para a triagem de doenças da glândula.

Valores de TSH elevados são indicativos de hipotireoidismo (baixo funcionamento da tireoide), principal suspeita quando se depara com tal achado laboratorial. O hipertireoidismo, situação em que há um funcionamento exagerado da glândula, tende a causar redução do TSH (a redução pode também ocorrer em efeito excessivo de medicamentos para tratar doenças da tireoide).

Hormônio T3

O T3 (triiodotironina total) alto indica hipertireoidismo ,ou mesmo o resultado de um tratamento hormonal. Já os níveis baixos significam que a tireoide está funcionando de forma muito lenta (hipotireoidismo).

Ele pode ser baixo também nos casos de envelhecimento, várias doenças graves, e também no uso de alguns medicamentos como propranolol, corticoides e amiodarona.

Hormônio T4

Os resultados para o T4 (tiroxina total) quando acima do normal podem indicar: gravidez, pré-eclampsia, miastenia grave, hipertireoidismo, anorexia nervosa, bem como o uso de medicamentos como o propranolol ou a amiodarona. Níveis baixos podem ocorrer em situações de hipotireoidismo, cirrose, nefrose, doença de Simmonds, insuficiência renal crônica ou pré-eclampsia. Frequentemente se lança mão da forma livre do hormônio, o T4 livre (tiroxina livre), de maior utilidade que a tiroxina total.

TGO e TGP

A TGO (transaminase glutâmico-oxalacética) e a TGP (transaminase glutâmico-pirúvica) são enzimas produzidas pelo fígado que, em altas concentrações, indicam lesões no órgão. São excelentes marcadores de cirrose, hepatite, e outros problemas que acometem o fígado. O valor normal de TGP (também chamada ALT ou alanina-aminotransferase) e de TGO (também chamada AST ou aspartato-aminotransferase) varia entre 10 a 37 U/L no sexo feminino e 11 a 39 no sexo masculino. Níveis elevados indicam lesão hepática, sendo hepatite a mais característica.

Hemograma

Esse exame verifica as células do sangue, como as hemácias (glóbulos vermelhos ou eritrócitos), os leucócitos (glóbulos brancos) e as plaquetas. Ele auxilia no diagnóstico e acompanhamento da evolução de doenças que provocam alterações no sangue, como:

  • acompanhamento de situações que comprometem a medula óssea, em casos de quimioterapia;
  • aumento das plaquetas (trombocitose) ou a sua diminuição (plaquetopenia ou trombocitopenia);
  • anemias;
  • câncer, em especial os casos de leucemias ou linfomas;
  • infecções bacterianas, virais ou fúngicas;
  • inflamações.

Além disso, é um exame importante para acompanhar doenças crônicas, como insuficiência cardíaca ou renal, artrite reumatoide, doenças pulmonares, entre outras.

Glóbulos vermelhos (eritrócitos)

A análise das hemácias, também chamada de eritrograma, é a primeira parte do hemograma. Além de indicar o quantitativo dessas células sanguíneas, essa análise também dá informações bem mais importantes que o simples número delas. Isso ajuda a caracterizar as anemias, e também outros distúrbios.

A concentração de hemoglobina – a proteína vermelha que dá a cor típica do sangue – costuma variar entre 12 e 16 g/dL nas mulheres e entre 13 e 17 g/dL nos homens adultos (antes da puberdade os meninos têm valores semelhantes ao sexo feminino). Bebês têm valores mais elevados, transitoriamente. Fumantes tendem a ter elevação dos níveis de hemoglobina, à medida que a lesão pulmonar progride. Pessoas que vivem em elevadas altitudes (não é o caso do Brasil, mas isso ocorre em regiões elevadas da Bolívia e do Peru, e também no Himalaia) têm níveis de hemoglobina elevados devido a uma resposta do organismo à rarefação do ar).

O hematócrito – percentual do sangue correspondente às hemácias – varia entre 36 e 47 ml/dL no sexo feminino, e entre 40 e 52% no sexo masculino (em bebês, em pré-púberes e nos residentes em elevadas altitudes as considerações feitas acima no que se refere à hemoglobina são válidas, assim como para os fumantes).

Do eritrograma fazem parte também os índices hematimétricos: o VGM (volume globular médio) indica o “tamanho” das hemácias, que é reduzido na anemia por deficiência de ferro e em alguns descendentes de povos da região do Mar Mediterrâneo, o que inclui ibéricos, italianos, norte-africanos, gregos, libaneses, cipriotas e outros (condição genética chamada talassemia, que muitas vezes é descoberta casualmente), o HGM e CHGM (hemoglobina globular média e concentração da hemoglobina globular média, chamados índices de cor, que indicam se há ou não redução da hemoglobina em relação ao esperado para o conjunto de hemácias), e os índices RDW (Red-cell Distribution Depth, que caracterizam a variação de tamanho das hemácias, o RDW-CV e o RDW-SD, o primeiro mais útil para hemácias de pequenas dimensões, e o segundo para hemácias de grandes dimensões).

Glóbulos brancos (leucócitos)

O leucograma é importante para verificar a imunidade da pessoa e a reação do organismo a diferentes situações, como inflamações e infecções. Quando a concentração de leucócitos está alta, o quadro é denominado leucocitose. Já quando baixa, é chamada de leucopenia. Mas os leucócitos são um grupo heterogêneo de células, e assim é de pouca utilidade considerar a elevação ou redução de seu número como um todo, devendo-se analisar as quantidades de cada um deles.

Quanto aos valores referenciais dos leucócitos, esse é um assunto de difícil solução, pois sendo o Brasil um país com elevadíssima miscigenação dos mais diferentes povos, é impossível fixa faixas de valores referenciais que contemplem todos (ou a maior parte) os indivíduos: europeus tendem a exibir números de neutrófilos maiores, enquanto subsaarianos e alguns orientais têm normalmente números mais baixos sem que tais particularidades indiquem doenças ou desproteção. Além disso, os números também são altamente variáveis com a idade e com hábitos, como a alimentação, esportes e exposição a substâncias químicas como as que fazem parte de medicamentos.

Veja como entender os resultados de um leucograma, com alguns exemplos de situações para alguns possíveis achados:

  • neutrófilos em número elevado — infecções, inflamação, câncer, trauma, estresse, diabetes ou gota, como exemplos;
  • neutrófilos em número baixo — uso de certos remédios (dipirona, anti-inflamatórios, antineoplásicos), falta de vitamina B12, radioterapia, exposição a benzeno e hidrocarbonetos relacionados;
  • eosinófilos em número elevado — alergias, verminoses, algumas micoses
  • eosinófilos em número baixo (ou ausência) — uso de betabloqueadores, corticoides, estresse, pneumonia, apendicite;
  • linfócitos em número elevado — mononucleose, caxumba, sarampo, coqueluche, doenças autoimunes (mas na infância é habitual a linfocitose);
  • linfócitos em baixo número — infecção por HIV, quimioterapia para câncer, radioterapia;
  • monócitos com valores elevados — tuberculose e outras infecções crônicas;

Plaquetas

As plaquetas são fragmentos de células da medula óssea, os megacariócitos, muito importantes para o processo de hemostasia (estancamento das hemorragias, o que inclui a coagulação do sangue). A faixa referencial é de 130.000 a 450.000/ mm³ de sangue, com valores mais elevados em crianças. O número tende a se elevar nas doenças inflamatórias e na deficiência de ferro, e também na doença chamada trombocitemia essencial (trombocitemia hemorrágica), sendo que neste último caso pode ultrapassar um milhão por milímetro cúbico.

Quando o número é muito elevado há risco de trombose (coagulação do sangue no interior dos vasos sanguíneos) e embolia (fragmentos que se destacam dos trombos e que podem obstruir vasos à distância). O número muito baixo de plaquetas – trombocitopenia – é indicativo de risco de hemorragias; essa alteração (trombocitopenia ou plaquetopenia) ocorre na dengue, na púrpura trombocitopênica (que nas crianças costuma seguir-se a infecções virais, e que nos adultos frequentemente relaciona-se a alguma autoimunidade), e na sensibilidade a certos medicamentos.

Finalizando…

Como vimos, entender o que os exames de sangue indicam em relação aos valores normais é importante para que possa ser compreendido sem dificuldades. Entretanto, apenas profissionais da saúde são qualificados para interpretar os resultados e utilizá-los como guia para realizar diagnósticos precisos.

Gostou deste texto? Então, amplie os seus conhecimentos lendo mais um artigo que publicamos em nosso blog: Laboratório de análises clínicas: saiba mais sobre os exames

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